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Caio Garrido é aluno do curso de formação em psicanálise do Núcleo Tavola.

cfgarridog@yahoo.com.br

 


Clarice Lispector – Entre a Ficção e a Realidade

Caio Garrido

 

Sabe-se que para escrever uma ficção e criar personagens dotados de uma vida própria quase, é preciso que o autor se implique, doando um pouco de sua alma, emoções e pensamentos para compô-los.

Muitas obras de ficção contém marcas psicológicas presentes nos personagens que se afiguram como auto-biográficas muitas vezes.  Ou tão somente, o autor, por ser um observador nato da vida ao seu redor, consegue criar personagens que retratam verdades vistas de forma binocular, e que tais verdades encontradas (nos personagens da vida real e da ficção) assustam o próprio autor de uma obra ficcional.

Clarice Lispector nos deixou um legado que atravessou o tempo, onde a escritora usou e abusou de contextos literários em que a realidade e a ficção se confundiam.

Dentro de tal estado de coisas, Clarice transmitia através dos seus livros muitas coisas que a atingiam, e “brincava” de certa forma com as congruências e divergências do si-mesmo dela em relações às estórias contadas.

Um exemplo disso pode ser encontrado em seu famoso livro "A Hora da Estrela. Um dos propósitos implícitos no final deste livro, em minha opinião, era o de desmistificar a morte (inclusive a sua própria). O livro, publicado pouco antes de sua morte, mostrava Clarice escrevendo através de um narrador fictício chamado Rodrigo S.M. No final da estória, ao descrever a morte de Macabéa, sua personagem principal, não elabora somente a morte dela mas a sua própria também.

Ela, que nas indas e vindas da personagem em sua narrativa genial, canalizava-se em enigmatizar o simples, expondo o leitor à uma incerteza quanto ao destino de Macabéa. Mas que outro destino poderia ela ter? Poderia ser um final bom, gratificante, mas o fim necessário à essa estória tinha como escopo a morte como passo final e decidido. Não sei quanto Clarice Lispector tinha de conhecimento do seu próprio estado de saúde na época em que escreveu este livro. Ela dizia que morria quando não escrevia. Tentando desaparecer nas vestes do narrador Rodrigo S.M., ficava mais clara a intenção da autora de desaparecer junto ao desaparecimento de seus próprios personagens. Talvez tinha ela na época a tarefa inconsciente de lidar com a proximidade de sua morte, que a fez elaborar, como diz ela segundo as palavras no livro:

"Nestes últimos três dias, sozinho, sem personagens, despersonalizo-me e tiro-me de mim como quem tira a roupa. Despersonalizo-me a ponto de adormecer."

Clarice projeta si mesma na imagem da personagem, que vive na mente dela e estabelece uma relação com algo de que Clarice poderia ter sido. Isto é, poderia ter sido uma pessoa qualquer (se é que já não o era segundo ela), fato que a deixa aturdida de alguma forma. O que faz com que sua própria morte seja de alguma forma amenizada e banalizada.

A jornada da Macabéa intriga a própria narradora e era como se ela implicitamente se pegasse questionando e refletindo:

“E se eu fosse ela?” ;  “Eu poderia ter sido ela”.

 


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